Constelação Familiar: Estudo de caso

O que é a alma humana? Podemos perdê-la? Podemos resgatá-la? O que seria uma “doença da alma”? A alma pode desaparecer para sempre? Como nos afastamos dela e como podemos nos reaproximar?

Vamos tentar elucidar todas essas questões, dentro da nossa experiência e compreensão, utilizando como exemplo o seguinte caso terapêutico:

Realizamos uma Constelação Familiar com uma mulher de 37 anos que havia sido doada pelos seus pais à outra família quando tinha menos de um ano de idade. Além disso, ela foi abusada sexualmente pelo próprio pai. O ódio e o rancor que ela sentia pelos pais eram tão grandes que esses sentimentos a estavam empurrando em direção à morte. Na Constelação ela afirmou, olhando pela janela, que “estava querendo desaparecer”.

Quando a interrogamos, ela declarou que já havia passado por uma cirurgia de câncer de útero e adquiriu HIV do ex-marido. O que concluímos claramente que ela estava andando a passos largos em direção à autodestruição.

Veja que quando nos desviamos da natureza essencial da vida – amor e consciência – a destruição, o sofrimento e a morte são os sub-produtos que encontramos pela frente.

Todo o nosso trabalho terapêutico com as Constelações Familiares e Soluções Sistêmicas é focado em descobrir onde o amor não está fluindo nas famílias e nos relacionamentos de uma maneira geral. A solução surge quando, de alguma forma, abre-se espaço para que o amor possa fluir novamente. A partir daí essa pessoa passa a olhar na direção da vida.

Nessa Constelação Familiar algo inusitado e essencial ocorreu: a entrada inesperada de uma representante(*) que a princípio não identificamos quem era. Pelas declarações dessa representante ela era a própria cliente. Vimos depois que se tratava da ‘alma perdida’ dessa cliente que se encontrava separada da mesma.

Foi tocante para mim e para todos os participantes ver que a parte perdida dessa mulher se tornara presente e a guiava em direção à vida. Enquanto a cliente inconscientemente buscava desaparecer, essa parte tinha uma ânsia imensa de viver.

Como nos desconectamos da nossa própria alma?

Vamos tomar o exemplo dessa cliente que foi abandonada pelos pais com menos de um ano de idade e aos seis anos foi abusada sexualmente pelo pai biológico. Então, caro leitor, você, por favor, me responda: como deve estar se sentindo esta pessoa? Qual é o tamanho da sua dor, da sua ferida, da sua raiva? Como ela deve olhar para os pais que deveriam ser seus principais suportes e inspirações na sua vida e, ao contrário, a abandonam e abusam da mesma?

Procure perceber esses sentimentos dentro de você mesmo, e observe o que acontece, pois todos nós em algum momento da vida sofremos abusos e perdas de partes essenciais. E o resultado é dor, sofrimento, perda do sentido de viver, desespero.

A alma cresce quando vivemos um sentimento de pertencimento e amorosidade; quando nos sentimos apoiados. Ela cresce quando amamos, somos amados, nos sentimos úteis; quando damos e recebemos.

A alma mingua quando, ao contrário, nos sentimos abandonados, envergonhados, abusados, violentados, desrespeitados e não amados. Nessas experiências a dor e a ferida são tão grandes que nos desligamos de partes essenciais da nossa individualidade. Para sobreviver a essas feridas e dores nos desconectamos da nossa própria alma. Podemos até chegar a viver como zumbis.

A alma nunca deixa de existir…

Ela estará sempre à espera de uma nova chance. E normalmente a nova chance vem quando decidimos nos procurar, nos encontrar. Quando não, a vida decide por nós; e a busca torna-se bem mais dolorosa. A busca interior, em última análise, é a busca por nossa alma perdida, nossa essência desvirtuada.

A. H. Almaas, em seu livro Coração de Diamante, denomina essa perda da alma de “perda da essência” ou “vazio”. Ele diz: “ […] Assim, um vazio não é senão a ausência de certa parte de nossa essência. Poderíamos sofrer a perda do amor, do valor, da capacidade de contato, da força, da vontade, do esclarecimento, do prazer, de qualquer dessas qualidades da essência. Há varias qualidades, mas quando as perdemos, não quer dizer que desapareçam para sempre. Nunca desaparecem para sempre. Simplesmente ficamos sem ela.”

[…] “Esses espaços vazios, naturalmente, originaram-se durante a nossa infância, em parte como resultado de experiências ou conflitos traumáticos com o nosso meio. À época desses acontecimentos, algumas qualidades essenciais foram tiradas de nós. Talvez os nossos pais não nos tenham valorizado, ou seja, não deram atenção aos nossos desejos, ou agiram como se a nossa presença não fosse importante; não nos mostraram que éramos importantes; ignoraram o nosso valor essencial. E porque nosso valor não fosse visto, nem reconhecido e, talvez, fosse até atacado e desencorajado, deixamos de ter essa qualidade em nós mesmos e o que ficou foi um vazio, uma deficiência”.

E completamos: Essas “deficiências” são partes da nossa alma que foram “arrancadas” e que precisamos recuperar. Elas são o que há de mais valioso em nós. Recuperar a própria alma é tudo o que um verdadeiro buscador mais anseia e almeja.

Namastê!

Guilherme Ashara

(*) “Representante” na Constelação Familiar é alguém que representa um familiar do cliente, uma pessoa que faz parte desse sistema ou mesmo o próprio cliente, em relação ao qual está sendo colocada a Constelação.


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