Amar, inclusive a dor

A dor, muitas vezes, é a mãe do amor.

Frente às arestas do mundo, duas saídas se apresentam. Uns sofrem. Outros, recorrem à anestesia, nada sentem. Não existe nada mais perigoso.

Tenho medo de quem não sente nada. Falta-lhes pele, sensibilidade. É assustador.

Não devemos, jamais, temer a dor. Algum dia, se tivermos sorte, se ainda estivermos vivos, a dor fará com que uma lágrima escape de nossos olhos cansados. Acreditem. Uma única lágrima. É tudo o que precisamos. Uma única lágrima, vinda de nossas profundezas, daquela parte de nós que nunca morre. Vinda da nossa verdade, da nossa sabedoria, do lago sagrado que repousa no centro de nosso peito. Com ela vem a matriz da vida que somos, e a possibilidade do novo, do renascimento, de uma consciência maior.

Dessa única gota de vida, todo um deserto pode voltar a viver, se não tivermos perdido a sensibilidade, se não tivermos nos transformado em estátuas de sal.

A lágrima rola, junto a nossos pés, e lá, da minúscula poça salgada, o milagre começa a acontecer. Um mínimo ponto verde brota da terra seca, frágil, trêmulo, vencendo a aspereza que se instalou em nossa vida. E aqui e ali, pequenas ilhas de vida começam a aparecer. E surgem alguns pensamentos amorosos, e um olhar mais compassivo. E gestos de cuidado, cuidado com nós mesmos, com os outros, com a natureza. E essa grama nova começa a atrair experiências. Aos poucos, outras plantas começam a surgir ao nosso redor, e pessoas, e pássaros, e borboletas. E um dia são tantas as borboletas que acabamos aprendendo sobre a fluida leveza de seu voo. Sim, porque as borboletas aqui estão para nos ensinar que somos leves a ponto de voar. Podemos nos transformar em cores que voam, e é assim que finalmente nos libertamos, e passamos a colorir o mundo com nossa beleza.

Se temos uma imensa capacidade de transformar beleza em feiura, acreditem, é ainda maior a nossa capacidade de transformar o feio na mais sublime expressão da beleza da nossa alma.

Talvez tudo comece com uma lágrima, seja ela de tristeza ou de saudade de nosso verdadeiro lar, que é como um jardim onde nos encontramos todos, para brincar e celebrar nosso infinito potencial de amar.

(Trecho do livro Deixe a Selva para os Leões)

 

 

Patricia Gebrim

Psicóloga e escritora

 


Categories: Sem categoria

Tags:,

Comente seus pensamentos

Participe