Amar de verdade requer entrega, uma profunda entrega, uma espécie de morte, e fico aqui pensando se não será esse o motivo das pessoas terem tanto medo de amar.
Se para amar é preciso entregar-se, a escolha das pessoas tem sido deixar o medo da entrega vencer. Quando isso acontece, as relações acabam se estabelecendo em níveis superficiais, mera troca egóica, empobrecida e condicional.
Perdemos a chance daquele amor maior. De olhar sem barreiras no fundo dos olhos do outro em busca da sua luz. De permitir que o outro nos olhe através de nossas defesas, que veja em nós a realidade de tudo o que é. A beleza, a feiura, a coragem, os medos, o anjo, o demônio, os sonhos, as inseguranças, a nua existência da nossa alma exposta em toda a sua frágil beleza. Não há força maior do que essa entrega, que permite que o amor maior aconteça. Não há beleza maior do que nos deixarmos ver, nús e frágeis, abertos, sem defesas, confiantes de que eu e o outro possamos, juntos, trilhar o caminho do amor.
A entrega amorosa só pode ocorrer quando abrimos mão das defesas. É preciso correr riscos. Isso não quer dizer concordar que o outro nos fira, maltrate ou desrespeite. Permitir esse tipo de coisas não seria amor, e sim falta de amor por nós mesmos.
A profundidade da entrega necessária assemelha-se a uma espécie de morte e pode parecer, aos que tenham menos consciência, um preço alto demais para se amar. Mas o que morre nesse caso é a ilusão de separatividade, a linha que traçamos separando o eu do outro, o limite que diz que sou isso que existe para dentro de minha pele, e que o que quer que esteja do lado de fora já não é “eu”. Quando essa delimitação se desfaz, o nosso verdadeiro eu se liberta dessas falsas fronteiras.
Ao amar, morremos como “ser separado” e nascemos como o “tudo que somos”. É lindo isso. Nos expandimos infinitamente em todas as direções. Nos tornamos não apenas aquilo que acreditávamos ser, mas também tudo o que nos cerca. Somos quem ama e também aquilo que amamos. Não há separação.
A alma finalmente se liberta das garras do ego.
Sinta isso por alguns instantes.
Sinta o verdadeiro amor.
(Trecho do livro Deixe a Selva para os Leões)
Patricia Gebrim
Psicóloga e escritora